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Por que o mal nos perturba?




Vivemos em um mundo profundamente marcado pela experiência do mal. A injustiça, a violência, a corrupção, o sofrimento e a morte não apenas nos atingem fisicamente; eles nos perturbam moral e existencialmente. O ser humano não sofre de maneira neutra. Reagimos ao mal com indignação, revolta, tristeza e perplexidade. Existe algo dentro de nós que insiste em dizer: “isso não deveria ser assim”.


Mas por quê?


Por que o mal nos perturba tanto? Por que a crueldade nos causa indignação? Por que o sofrimento nos leva a procurar explicações? Talvez essas perguntas revelem algo muito mais profundo sobre a natureza humana e sobre a própria realidade.


Embora partam de perspectivas bastante diferentes, C. S. Lewis e Peter Berger oferecem contribuições extremamente relevantes para essa reflexão. Lewis ajuda a compreender a natureza moral do mal; Berger ajuda a compreender a necessidade humana de produzir sentido diante dele. Juntos, ainda que em campos distintos, ambos revelam algo importante sobre a alma humana:


o homem não consegue conviver pacificamente com o caos.


  1. O mal como corrupção do bem


Em Cristianismo Puro e Simples, Lewis desenvolve uma percepção profundamente influenciada pela tradição cristã agostiniana: o mal não possui existência própria. Ele não é uma força criadora equivalente ao bem. O mal é uma corrupção, uma distorção daquilo que originalmente era bom.


Essa percepção é extremamente importante. O orgulho é uma corrupção da dignidade; a tirania é uma corrupção da autoridade; a mentira é uma corrupção da linguagem; a luxúria é uma corrupção da sexualidade; o ódio é uma corrupção da capacidade humana de amar. O mal não cria nada novo. Ele apenas desordena aquilo que Deus criou bom.


Isso significa que o mal depende do bem para existir. Assim como a ferrugem depende do metal ou a podridão depende da madeira, o mal age como um parasita da criação. Essa visão destrói qualquer ideia de dualismo absoluto entre bem e mal. O mal não possui autonomia ontológica (existência); ele é dependente do bem que corrompe.


Lewis percebe algo ainda mais profundo: só conseguimos reconhecer o mal porque existe dentro de nós algum senso de bem. Quando chamamos algo de injusto, cruel ou perverso, estamos implicitamente assumindo que existe um padrão moral objetivo pelo qual julgamos a realidade.


Esse ponto é decisivo. Afinal, se o universo fosse apenas produto do acaso, sem qualquer ordem moral transcendente, por que o sofrimento nos indignaria moralmente? Por que a injustiça nos pareceria errada? Em um universo puramente material e indiferente, categorias como “bem” e “mal” seriam apenas preferências culturais ou emocionais.


Mas o ser humano continua reagindo ao mal como algo objetivamente errado. A dor física pode ser suportada com resignação; já a injustiça nos revolta. Isso revela que não somos criaturas moralmente neutras. Existe em nós uma consciência de que o mundo está quebrado.


  1. A necessidade humana de sentido


É justamente nesse ponto que a contribuição do livro "O Dossel Sagrado" se torna extremamente relevante.


Berger, o autor do livro, não procura responder teologicamente à origem do mal. Seu interesse está em compreender como os seres humanos conseguem continuar vivendo em meio ao caos. Para ele, toda sociedade constrói mecanismos de sentido para tornar a realidade suportável. O sofrimento ameaça aquilo que Berger chama de “nomos” (leis, ordens) — a ordem significativa que organiza a existência humana.


O caos é insuportável porque o homem necessita acreditar que a realidade possui coerência. Diante da morte, da tragédia e da injustiça, as sociedades produzem narrativas, crenças e sistemas simbólicos capazes de preservar algum tipo de significado.


Nesse sentido, a teodiceia — ramo da filosofia e da teologia que busca explicar como um Deus bom e justo permite a existência do mal — não é apenas uma questão religiosa; ela é uma necessidade humana universal. O homem não consegue viver muito tempo em um universo sem sentido.


Mesmo a modernidade secularizada continua criando suas próprias “teodiceias”. Ideologias políticas, discursos terapêuticos, movimentos identitários e narrativas sociais frequentemente assumem a função de explicar culpa, sofrimento, opressão e esperança. A sociedade contemporânea talvez tenha abandonado Deus, mas não abandonou a necessidade de interpretar moralmente a realidade.


Isso explica por que o homem moderno continua profundamente moralizado. Continuamos falando sobre justiça, dignidade, direitos, opressão e maldade. Continuamos buscando culpados, redenção e esperança coletiva. O desejo por sentido permanece vivo.


Berger ajuda a perceber que o problema do mal não é apenas intelectual; ele é existencial. O caos ameaça a própria estabilidade da alma humana.


  1. A perturbação diante do mal


Talvez seja justamente aqui que Lewis e Berger se encontrem de maneira mais interessante.


Lewis ajuda a compreender por que reconhecemos o mal: fomos criados dentro de uma ordem moral objetiva. Berger ajuda a compreender por que precisamos interpretá-lo: o ser humano não suporta viver sem significado.


O mal nos perturba porque ele fere algo profundamente enraizado em nossa própria natureza. A corrupção do mundo não destrói apenas estruturas externas; ela também atinge a alma humana. Há dentro de nós um anseio por ordem, bondade, justiça e plenitude que entra em conflito constante com a realidade quebrada que experimentamos diariamente.


Talvez nossa indignação diante da crueldade seja um dos últimos ecos da imagem de Deus ainda presentes em nós.


O homem moderno tenta frequentemente construir sentido sem transcendência. Mas continua incapaz de eliminar categorias morais da existência. Continuamos procurando redenção, ainda que em lugares errados. Continuamos desejando justiça, ainda que sem fundamento absoluto. Continuamos tentando reorganizar cognitivamente um mundo que parece desmoronar diante de nós.


No entanto, o cristianismo oferece algo singular: ele não apenas explica o mal; ele também oferece redenção para ele.


A narrativa bíblica afirma que o mundo foi criado bom, mas corrompido pelo pecado. O caos não é natural; ele é resultado da ruptura da criação com seu Criador. Porém, a mensagem cristã não termina na queda. Em Jesus Cristo, Deus entra no sofrimento humano, enfrenta o mal e inaugura a esperança da restauração final de todas as coisas.


O Evangelho responde tanto à questão moral quanto à existencial. Ele explica por que o mal nos perturba e oferece esperança para além dele.


Talvez o fato de o mal ainda nos incomodar profundamente revele que fomos feitos para algo maior do que este mundo quebrado.

 
 
 

1 comentário


jeniracebec
22 de mai.

Gostei muito do conteúdo! Parabéns

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