top of page

Gênesis 1:1 - No Princípio

“A Criação dos Animais” (La Creazione degli Animali), Jacopo Tintoretto, c. 1550–1553
“A Criação dos Animais” (La Creazione degli Animali), Jacopo Tintoretto, c. 1550–1553

Uma das maiores virtudes das Escrituras é a sua simplicidade profunda. A Bíblia não começa com argumentos filosóficos, nem com explicações científicas, mas com uma declaração clara, majestosa e suficiente:


“No princípio criou Deus os céus e a terra.” (Gênesis 1.1)


Essa afirmação inaugura toda a cosmovisão cristã. Ela estabelece, logo no início, uma distinção fundamental: Deus é eterno; tudo o mais é criação. Nada existe por si mesmo. Tudo depende da vontade, da palavra e do poder do Criador.


Mas essa verdade levanta perguntas importantes: quando tudo começou, o que exatamente foi criado? O tempo? A matéria? E o mundo espiritual? Onde entram os anjos nessa história?


O “princípio” não é um detalhe — é o fundamento


O “princípio” de Gênesis 1.1 não é apenas o início do universo material. Ele marca o começo absoluto da realidade criada. Antes desse princípio, não havia matéria, espaço, tempo ou criaturas espirituais. Havia apenas Deus — eterno, triúno, autoexistente.


A Escritura confirma isso repetidamente:


“Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir.” (Salmo 33.9)


Portanto, o “princípio” não descreve um estágio dentro de uma história maior, mas o momento em que Deus chama à existência tudo aquilo que não é Ele mesmo.


O tempo também é criação de Deus


Muitas vezes pensamos no tempo como algo natural e eterno, mas a Bíblia apresenta outra perspectiva: o tempo começa com a criação.


Em Gênesis 1, a sucessão dos dias — “houve tarde e manhã” — revela que o tempo passa a existir juntamente com o mundo criado. Somente Deus é eterno:

“De eternidade a eternidade, tu és Deus.” (Salmo 90.2)


Deus não está preso ao tempo. Ele não envelhece, não muda, não espera. Ele cria o tempo e governa a história soberanamente.


Essa verdade é essencial para a fé cristã, pois impede que pensemos em Deus apenas como “o mais antigo dos seres”, em vez do Senhor eterno sobre todas as coisas.


E os anjos? Eles também foram criados?


Sim. A Bíblia é clara ao afirmar que os anjos não são eternos, nem divinos. Eles fazem parte da criação de Deus.


“Louvem o nome do Senhor, pois ele ordenou, e foram criados.” (Salmo 148.5)“Pois, nele, foram criadas todas as coisas… visíveis e invisíveis.” (Colossenses 1.16)


Os anjos pertencem ao mundo invisível criado por Deus. Eles não existem por si mesmos, não compartilham da eternidade divina e não devem ser adorados.


Os anjos existiam antes da criação da terra?


Um texto decisivo para essa questão está em Jó 38. Quando Deus questiona Jó sobre a criação, Ele diz:


“Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? … quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?” (Jó 38.4–7)


No livro de Jó, a expressão “filhos de Deus” refere-se aos seres celestiais. Isso indica que os anjos já existiam quando Deus criou a terra.


Mas é importante entender corretamente o que isso significa. Não quer dizer que os anjos existiam desde a eternidade ou fora do “princípio”. Significa que, dentro do ato criador inicial,


Deus trouxe à existência tanto o mundo espiritual quanto o mundo material, ainda que o relato bíblico foque especialmente na criação do mundo habitável e do homem.


Os anjos vivem fora do tempo?


Não. Apenas Deus é verdadeiramente atemporal.

Os anjos:

  • Pensam e agem

  • Executam missões

  • Tomam decisões

  • Alguns caíram em pecado (cf. 2 Pedro 2.4; Judas 6)


Tudo isso pressupõe sucessão. Portanto, os anjos não são eternos nem atemporais, mas também não estão submetidos ao tempo físico, como nós, marcado por relógios, dias e anos.


Eles pertencem a uma ordem criada espiritual, com início e com sucessão real de atos,

distinta da nossa experiência corporal do tempo.


Por que essa doutrina é importante para a vida cristã?


Essas verdades não são meras curiosidades teológicas. Elas moldam nossa fé e nossa prática:

  • Reafirmam que só Deus é eterno

  • Preservam a distinção entre Criador e criatura

  • Impedem a supervalorização dos anjos

  • Fortalecem a centralidade de Cristo


“Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” (Colossenses 1.17)


Além disso, nos lembram que vivemos em um mundo criado com propósito, ordem e direção, sustentado pela palavra de Deus.


Conclusão


O “princípio” de Gênesis 1.1 abrange toda a criação — visível e invisível. Nele, Deus chama à existência tanto o mundo espiritual quanto o material. Ainda que o texto bíblico concentre sua atenção na criação do mundo e do homem, a Escritura como um todo nos mostra que os seres angelicais foram criados nesse mesmo princípio e já existiam quando a terra foi fundada.


Essa compreensão não nos leva à especulação, mas à reverência, à humildade e à adoração.


“Ó Senhor, quão numerosas são as tuas obras! Fizeste todas elas com sabedoria.” (Salmo 104.24)

 


 
 
 

Comentários


bottom of page